Minha vida é como um oceano vasto e profundo. Quando olhamos de fora vemos a superfície azulada brilhando sob a luz do sol ou luar, contemplamos o mar e pensamos “como é lindo”.
Quando entramos nesse mar nos deleitamos nas águas rasas de temperatura gostosa, mergulhamos, boiamos, relaxamos enquanto pensamos “que sensação gostosa”.
Quando vamos mais a fundo ficamos em alerta, a água já é mais fria e profunda. Passado algum tempo já não sentimos os pés tocarem o chão, a correnteza é forte e começa a te pressionar: se não souber nada, vai afundar.
Uma vez imerso nesse oceano que te afastou da terra firme, começamos a entender melhor o cenário com os diversos perigos que o acompanham. A vida no fundo do oceano é completamente diferente daquela qual vemos somente a superfície.
Nada é brilhante o suficiente e a sensação se aproxima mais de um desespero enquanto afundamos no escuro, suscetíveis a ataques de qualquer outra coisa desconhecida desse novo espaço.
Quando estamos nesse buraco sem fundo já não temos mais controle de onde vamos parar, mas olhando pra cima você assiste de longe toda aquela luz presente na superfície que um dia foi sua. Você sabe que esse brilho ainda existe, mas não sabe como voltar pra ele, não sabe nadar e já está fraco demais para tentar.
Nem sempre somos o que mostramos na superfície e o peso que carrega para continuar existindo, só você sabe. Crescemos com a ideia de que a vida melhora quando nos tornamos adultos porque ganhamos autonomia para resolver os problemas.
Infelizmente a fase adulta da sua vida vai ser gasta tentando lidar com os traumas que você acumulou enquanto ainda não podia falar por si e assim teve sua voz cessada. Estando aqui agora, entendo que por mais responsável que eu seja, nem tudo me cabe.
Eu cheguei ao fundo do oceano muito nova, nadei por águas desconhecidas e violentas enquanto tentava sobreviver a cada tsunami. Ainda que eu tenha me esforçado para manter o mar da superfície brilhante , nem sempre foi possível. Algumas ondas são tão fortes que não podemos suportar.
Ainda assim, fiz o que foi possível, lidei com o que me era cabido e somente agora posso dizer que, apesar do meu oceano ser belo na superfície e obscuro em sua base, continuo lutando para manter viva a natureza diversa que nele habita.
Essa natureza me tornou quem sou, construiu uma fortaleza bonita na superfície, imponente e resistente à sua base. Eu tenho muito respeito pelo que vejo em mim, ainda que com falhas, é uma versão agradável do oceano que sobreviveu mesmo após muitos desastres da sua própria natureza.

Nenhum comentário:
Postar um comentário