Quando eu era criança minha mãe trabalhava como doméstica em casas de família. Seus dias de faxina tinham sempre minha companhia porque não havia alguém que pudesse ficar comigo enquanto ela trabalhava.
Nos horários de intervalo eu saia pela porta dos fundos (que antes se chamava porta de serviço) e corria as escadas do prédio inteiro em busca de lixo de gente rica hehehe. Certo dia achei uma maleta de pintura da Faber-Castell que apesar de usado, ainda tinha restos de tintas aquarelas e lápis de diversos tamanhos. Pra mim que nunca pude ter esses materiais mais elaborados, foi algo de outro mundo.
Eu voltei correndo pro apartamento que minha mãe trabalhava e comemorei meu grande achado. Fazia muitos desenhos cegos (riscos feitos aleatoriamente que você vai preenchendo de acordo com sua imaginação) e a sensação era incrível.
Continuei a acompanhar minha mãe no seu trabalho, mas diferente de antes, eu a "ajudava" com muita pressa pra logo ter meu momento livre e pintar o máximo que desse e pudesse. Acho que foi nesse momento que desenhar ganhou outro significado pra mim.
De repente eu não estava mais no chão do quartinho de empregada pintando folhas usadas e sim, em qualquer outro lugar tão maravilhoso quanto a minha imaginação permitisse ir.
Nunca me tornei um "alguém" artista, também não tenho as melhores técnicas ou habilidades plausíveis para isso, mas tudo que já fiz (e ainda faço) foi profundamente sincero, cada linha disposta num papel carregou as maiores dores que já tive. É assim que consigo me expressar e “descarregar” os dias difíceis.




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